quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O Amor e "Como me tornei estúpido"

1. Preliminar.

Como me tornei estúpido é um livro de um jovem escritor francês chamado Martin Page. Em brevíssimas linhas, conta a história de um rapaz que percebe viver deslocado socialmente; de um lado, aborda a tentativa desesperada desse anti-herói se integrar à sociedade e, de outro, como esta sociedade de certa forma exige que a pessoa se desnature e se transforme no que considera um "estúpido" para ter uma vida, digamos, confortável. Tudo isso narrado com muito bom humor. Paro por aqui para não estragar a leitura de alguém. Neste livro há uma passagem muito interessante, que foi objeto de reflexão e que será abordada adiante.

Ultrapassada a preliminar, vamos ao mérito.

2. Introdução.

Para começar, pergunto: o que é o Amor? Na 1ª edição de seu Dicionário, o renomado léxico e filólogo AURÉLIO BUARQUE DE HOLANDA FERREIRA conceitua o amor como sendo uma "inclinação forte por pessoa de outro sexo, geralmente de caráter sexual, mas que apresenta grande variedade de comportamentos e reações". Seria Aurélio um homofóbico? Gay não ama? Esse conceito está defasado desde sempre. Ou será que na Grécia antiga os filósofos não amavam seus parceiros? Ainda que eles tivessem a mania de subestimar os sentimentos e supervalorizar a razão, não podemos afastar tal sentimento de seus espíritos. Ora, quem nunca ouviu a expressão "amor platônico"?

Já no Wikipédia, oráculo dos pesquisadores vagabundos e/ou preguiçosos, encontramos a seguinte definição: "o Amor é um sentimento oriundo da afinidade intelectual, da afinidade de interesses, da admiração sobre a personalidade alheia, do nível comparativo de utilidade da própria personalidade e sua consequente reafirmação", e continua, "no amor reside o sentimento de gratidão, instintivo, compaixão, doar-se sem a consciente intenção de esperar algum retorno".

Na mesma linha (meu Deus! Nunca pensei que acharia uma conexão entre eles), CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE doutrina, no poema As sem-razões do Amor:
Amor é estado de graça
e com amor não se paga
Amor é dado de graça
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Na Alemanha, destoando das concepções supracitadas, afirmava HEGEL, em Princípios da Filosofia do Direito: "Amar é estender o seu corpo em direção a um outro corpo; mas é também, mais fundamentalmente, exigir que esse corpo, que ele deseja, também se estenda; é desejar o desejo do outro". Existe para ele um duplo enfoque do amor, ou seja, desejar outrem e também desejar ser desejado por este. É um tanto egoísta essa concepção, mas, contrariado, admito que é verdadeira. Ou alguém ─ não estamos falando de cachorros, hein?! ─ quer amar e não ser amado? Só um louco responderia que sim. Obviamente, registre-se, estamos tratando do sentimento que vai além da amizade e relações familiares.

                                                                            (Dik Browne)

Além daquelas, o roteirista CHARLIE KAUFMAN nos brinda, no filme A natureza quase humana, com a hilária e triste ideia de que "o amor nada mais é do que um agrupamento bagunçado de carência, desespero, medo da morte, insegurança sobre o tamanho do pênis e a necessidade egoísta de colecionar o coração de outras pessoas".

Independente da concepção, qualquer pessoa sensata tem consciência de que o Amor é um sentimento sublime que deve ser prezado, estimado e cultivado. Ele não é ─ ou ao menos não deveria ser ─ algo trivial, que acontece com regularidade, porque é especial por natureza. É como diz a sabedoria popular: "te amo" não é "bom dia". 

3. As relações mundanas e a (pós-)modernidade.

Lendo o Como me tornei estúpido, me deparei com uma passagem que destoa do bom humor que permeia a obra de MARTIN PAGE. O protagonista, influenciado por um amigo, é levado a uma agência de namoro/casamento. Decorrido um relativo tempo de atendimento, a empresária, movida pela impaciência, desiste de encontrar uma señora para o rapaz e procura fazê-lo indiretamente: cadastrando-o no sistema e aguardando o momento em que alguma mulher demonstre interesse no seu perfil. Ela então pede para que ele se descreva e é surpreendida por descrições morais, fugindo à normalidade ao não elencar os atributos físicos e materiais. Ela deixa a impaciência de lado e fica enfurecida, iniciando o diálogo da seguinte forma: 
─ O senhor está zombando de mim? Eu não tenho tempo a perder com pessoas que querem ser amadas pela sua personalidade.
E um pouco adiante emenda:
─ O trabalho, a musculatura, o corpo, a idade, o dinheiro, o peso, o carro, as roupas, a cor dos olhos, a nacionalidade, a marca de sucrilhos que o senhor come de manhã... O senhor não pode imaginar a quantidade de fatores que têm influência.
Ela chega a afirmar que Maquiavel disse coisas que parecem cínicas sobre a política e que nem por isso não são verdadeiras, se autointitulando como a "Maquiavel do amor". O rapaz argumenta que ela está generalizando (e está mesmo, claro) e ela acaba demonstrando que é uma mulher infeliz e que teve experiência ruins com relacionamentos. Mas o que ela disse é cínico e verdadeiro? Tudo bem, vamos admitir que uma pessoa com pertences provavelmente será mais atraente do que uma sem, mas vamos também focar em pessoas que não querem se interessar apenas por bens materiais, ou seja, em pessoas com preocupações ontológicas mínimas. Aqui, não nos preocupamos ─ e nem criticamos ─ com pessoas que almejam satisfazer seus instintos primitivos, sua lascívia, pois dois seres desimpedidos podem convergir as suas vontades no mesmo sentido, já que quando "dois querem, dois não brigam". O objeto de estudo do artigo é o ser humano que tem a pretensão de ter um relacionamento sério.

E o que seria personalidade? Seria, nas palavras de CLÓVIS BEVILÁQUA, a aptidão genérica para adquirir direitos e contrair deveres? Também, mas não estamos tratando de Direito aqui. A personalidade pode ser entendida como um complexo de características simbiônticas que molda o sentir, o querer e o atuar da pessoa, conferindo individualidade ao ser humano. Ora, como se relacionar com outra pessoa sem se interessar pela sua personalidade? Isso é tão comum hoje em dia. E como amar outra pessoa sem também se interessar pela sua personalidade?

Vivemos num mundo em que o movimento de rotação é cada vez mais rápido, os dias passam tão depressa que a gente muitas vezes nem percebe. E as informações que vem por todos os lados, de cima e por baixo? (E vale lembrar que o excesso "provoca amnésia", disse UMBERTO ECO em recente entrevista). Junte aos dois a pressão da sociedade por objetividade e resultados em curto espaço de tempo, misture bem e teremos o cenário atual, que obviamente reflete nos relacionamentos. É o (pós-)modernismo.

                                                                                                                                                                 (Cibele Santos)

O que está na moda é "ficar", ter relacionamentos curtos e/ou se relacionar com estranhos ou conhecidos. Vamos repetir: quem não quer relacionamento sério não está abrangido no presente estudo; contudo, quem quer o algo mais e se vale desse expediente está. Um exemplo: uma amiga apresenta um amigo para uma solteira e esta engata um romance em alguns dias. Mas será tempo suficiente para conhecer bem a pessoa, o seu caráter, a família e as pessoas que a rodeiam? Outro exemplo: a pessoa está solteira, vê seus amigos namorando e fica desesperada para namorar também, e com o primeiro que aparecer. E apressados passam a cantar o sucesso na voz de Zeca Pagodinho:
E deixa a vida me levar (vida leva eu)
E deixa a vida me levar (vida leva eu)
(...)
Se a coisa não sai
Do jeito que eu quero
Também não me desespero
O negócio é deixar rolar
E aos trancos e barrancos
Lá vou eu!
(Deixa a vida me levar, de Serginho Meriti e Eri do Cais)
Deixam, na verdade, de efetivamente protagonizar as suas vidas e vão tratando as relações como se fossem Loteria: tem uma chance de acertar e ganhar! Ao menos podem se iludir, se contentar ou até ficar feliz com a probabilidade de acertar ser maior do que o 1 em 50.063.860 da Mega-Sena.

No geral, as pessoas não têm mais paciência para conhecer o outro, muitas vezes o meio impede que, por ex., uma amizade prospere ou evolua para algo mais. O Amor é substituído ou confundido com alguma coisa efêmera, que se assemelha a um bem-estar e que tem como objetivo a aparência. Assim, não é fácil nos dias atuais de acontecer duma relação ir crescendo gradualmente, as pessoas se conhecerem bem, se admirarem, se respeitarem, se desejarem e...

E é assim que a personalidade e também o Amor vão dando espaço para qualquer coisa. E não podemos esquecer que:




Informações bibliográficas:
Conforme a NBR 6023:2002 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), este texto científico publicado em periódico eletrônico deve ser citado da seguinte forma:
BARRETO, Fabrício. O Amor e "Como me tornei estúpido". Salvador, 26 jan. 2012. Disponível em: http://semapretensao.blogspot.com/2012/01/o-amor-e-como-me-tornei-estupido.html. Acesso em: DD/MM/AAAA.

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