quarta-feira, 18 de abril de 2012

A miragem

Mais próximo dos trópicos
Ou da Linha do Equador estou?
O calor é intenso, sede,
Vertigens, cansaço.

Clima quente e úmido, tropical
Ou semi-árido?

Desorientado, aguardo há muito
E vejo ao longe chegando.
Se aproxima e não é nada.
Foi só uma miragem.
Até quando vou esperar?

Angústia, tristeza, ansiedade.

Não sei quando, mas sei que virá.
Sou forte, não me entrego.
Tenho um alento: quanto mais demora,
Mais próximo de chegar.

domingo, 8 de abril de 2012

Ensaio sobre as recordações

As recordações são os registros da e na memória de fatos ocorridos, se relacionam diretamente com o tempo passado e se dividem, de acordo com a nossa classificação, em lembranças e lambanças. A primeira registra as boas recordações ou aquelas que são úteis. Os bons momentos com os amigos, familiares, filhos, as conquistas, especialmente a do amor e as advindas do esforço, o próprio esforço, o trabalho em geral, o estudo, aprender um novo idioma, memórias da infância, época em que tão-só a diversão era importante, são exemplos de lembranças. A lambança não merece parágrafo próprio, mas terá assim mesmo.

Diferentemente daquela, a lambança é o registro de fato ruim e inútil que ocorreu e que é considerado uma ululante perda de tempo. Só chegamos a tal conclusão após vivenciá-los e simplesmente constatar que ter feito algo ou vivido certa experiência não teve valia (ou a devida valia). Ninguém sabe que é até ser. Por que não teve o valor esperado? Porque sua energia e seu tempo foram desperdiçados com alguma coisa que não pode ser (re)aproveitada e esta pessoa tem a firme convicção de que poderia ter realizado algo palpável, útil, durante o intervalo temporal dedicado. É extremamente difícil, talvez inevitável, não ter uma lambança na memória, porque são muitas experiências de vida, tantas opções e muitas vezes cada escolha feita importa numa renúncia.

                                                                                                                                                                 (André Dahmer, 2011)

Ela, a lambança, gera uma melancolia ou arrependimento profundo por não ter feito coisa diversa, concreta ou com potencial. Assim, também se relaciona, mas indiretamente, com o futuro do pretérito. A pessoa teria feito diferente, ou sequer teria feito, se possível fosse. Mas nunca é, exceto se estivermos falando de Marty McFly e do Dr. Emmett Brown.

O curioso é que um mesmo fato pode ser lembrança para um e lambança, para o outro. As pessoas podem reagir de forma diferente ao mesmo fato ou ele pode ter nuances outras e incidir diversamente nas pessoas. Um exemplo razoável: numa festa, conhecer uma pessoa bacana, "ficar" e uma das duas querer algo efêmero enquanto a outra tem perspectivas românticas. Para aquela, o fato "conhecer e ficar" será uma lembrança, já que passou momentos agradáveis com uma pessoa legal e só queria isto. Será, contudo, uma lambança para quem esperava algo mais e se sentiu, de certa forma, usado.

Já que, segundo Fernando Pessoa, tudo vale a pena se a alma não for pequena, a única experiência positiva que pode ser retirada desta recordação negativa é não repetir o erro e procurar aproveitar melhor a energia vital e o tempo com reservas e obstinação. Como? Quem souber, por obséquio, nos conte. Já que é praticamente inevitável, ao menos que a lambança seja diferente. Cometer o mesmo erro é burrice, diz a sabedoria popular. A voz do povo é a voz de Deus.